sexta-feira, maio 02, 2003

Soneto 27
Se da jornada chego fatigado
E deito os membros lassos neste pouso,
À viagem da mente sou lançado,
O corpo entregue à paz do bom repouso;

Longe, o meu pensamento te procura,
Numa zelosa peregrinação
E olhar cansado, posto em noite escura,
Mostra o que o cego vê, noutra visão;

Pois este olhar do espírito imagina
Desocultar sem olhos o teu vulto,
Que a velha noite adorna e repristina,

Gema engastada, quando o desoculto:
Em alma e carne lavras inquietude
Que noite e dia gera faina rude.

William Shakespeare